O HOMEM MAIS RICO DA MINHA TERRA
O esporte de Tatuí, em particular o futebol, inquestionável paixão nacional, que chega a provocar uma ponta de ciúme entre tantas outras modalidades que se sentem preteridas, tem produzido figuras admiráveis, nem sempre reconhecidas, principalmente numa sociedade de consumo em que vivemos, onde o velho é para ser descartado, seja objeto ou gente.
Os dias passam muito rápido, a tecnologia acelera cada vez mais o ritmo do ser humano que se obriga a ser competitivo para sobreviver e preservar sua descendência. O suficiente para que valores, sejam alterados, relações de amizade, reconhecimento e gratidão, tomem novo sentido.
Faço esta introdução para falar de um homem que as novas gerações não conhecem e que se nós que o conhecemos bem não falarmos dele e não fizermos o registro da sua existência e importância para o nosso futebol, para o nosso esporte, para a nossa cidade, com certeza muito em breve cairá no completo esquecimento. Realidade dura. Injusta.
A figura sobre quem escrevo com o objetivo de enaltecer seu nome, acabou absorvendo e tendo como sobrenome o nome da instituição que sempre representou e honrou.
A memória a ser preservada e sempre homenageada é do José Carlos Alves de Souza, ou simplesmente Zé Carlos do Onze.
Zé Carlos do Onze, não sei como, já escolheu o mês de agosto para nascer, nasceu em 19 de agosto de 1930, mês que dá nome a instituição que ele amou e a quem se dedicou por 52 anos ininterruptos, formando muitos atletas e centenas de cidadãos, que jamais esqueceram suas lições de honestidade, decência e honradez, num clube esportivo que, ainda, ama na lucidez de seus 83 anos bem vividos gozando de saúde boa para a alegria dos que o estimam.
Na Castelo Branco, no banco do carona, relaxado, a caminho da capital, falando com André, meu filho, sobre nosso assunto preferido, o esporte, e os personagens que tiveram importância em nossas vidas esportivas, lembrei me de que há tempos não tinha notícias do Zé Carlos do Onze.
André decretou, “pai, este é um cidadão emérito de Tatuí, cuja memória não pode ser esquecida. Vou propor na Câmara Municipal este título em reconhecimento à dedicação de toda uma vida em favor do futebol e da formação esportiva e de caráter de tantos tatuianos”.Descobri que conheço muito pouco de uma pessoa que marcou a vida de várias gerações de jovens de Tatuí, incluindo a da minha.
Motivado pela iniciativa do André, voltei da viagem com o propósito de saber mais do Zé Carlos do Onze, mais que isso saber de seu estado de saúde, de como esta a sua vida. Indaguei ao Wisner, meu grande amigo e presidente atual do XI de Agosto.
Sensibilizados, ambos, mas sem muita informação somos localizar o paradeiro do Zé Carlos do Onze que não morava mais na rua do Cruzeiro, naquela casa que parece ter assimilado a alma e a personalidade da família que lá sempre habitou e que hoje esta vazia. Continuamos a busca e não foi difícil encontra-lo, hora do almoço, não quisemos atrapalhar, marcamos mais tarde.
Voltamos. Wisner com a máquina fotográfica em punho.
Encontramos Zé Carlos nos esperando, sentado, sereno, tranquilidade, de quem esta em paz, consigo mesmo, de quem sabe que desempenhou papel importante na formação do caráter de muitos homens que hoje são os protagonistas na história contemporânea de Tatuí, lembrou fatos e personagens, com alegria, felicidade que contagia.
José Carlos Alves de Souza, é o terceiro filho do musico Paulo Alves de Souza e da dona de casa Antônia Maria da Conceição Alves e irmão de Nelson Alves de Souza e Gilberto Alves de Souza, vivos, além de Pérsio Alves de Souza, Osvaldo Alves de Souza, Valdemar Alves de Souza, Acácio Alves de Souza e de Helena Alves de Souza.
Valeu o dia. Não nos demoramos muito para permitir a ele descansar, deixei Wisner em sua casa e fui me lembrando do grande escritor de nossa terra Paulo Setúbal em seu Confiteor, onde, em um de seus capítulos, narrou a história de um professor, Seo Chico Pereira, a quem descreveu como o homem mais rico de sua terra, pela generosidade, humildade, espírito humanitário.
Nós, preocupados entre outras coisas em saber das necessidades materiais do Zé Carlos do Onze. Assim, descobri que tínhamos acabado de visitar um dos homens mais ricos da nossa terra.
Homem que desposou a Associação Atlética XI de Agosto e educou a centenas de filhos de todas as origens.

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